O INIMIGO DO REI: o grito irreverente e ousado da anarquia*

O periódico anarquista brasileiro O Inimigo do Rei surgiu em 1977 e, apesar de toda sorte de problemas e desafios, manteve-se até 1988. Foram onze anos, sob uma ditadura militar, divulgando  ideias e propostas anarquistas e libertárias, contemplando todos os campos de atuação e interesses dos grupos e indivíduos que o mantinham.

 

Se outra importância não houvesse, apenas essa já o colocaria entre as mais importantes ações levadas a cabo pelos anarquistas no Brasil. Porém, ele representou muito mais do que isso. Foi o responsável por aglutinar os grupos anarquistas espalhados pelo País, assim como também influenciou na criação de novos grupos. Além disso, proporcionou a oportunidade a todos os envolvidos vivenciarem, na prática, as propostas tão caras ao anarquismo: livre associação, federalismo, liberdade de expressão, autogestão e a não distinção entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal.

 

Em 1977, na Universidade Federal da Bahia, estudantes e professores se articularam e organizaram o grupo que deu origem ao jornal O Inimigo do Rei. Para este nome existem várias versões: segundo Edgar Rodrigues (2007), é uma “sátira ao presidente general Geisel, cuja postura era de um monarca”; segundo outras fontes o nome simboliza a luta contra o poder absoluto.

 

Num primeiro momento, seus objetivos imediatos foram o de combater o autoritarismo dos grupos políticos marxistas que dominavam o Movimento Etudantil e, também, para garantir espaço para novas propostas de organização das lutas e a discussão de novos temas, muitos deles considerados tabus pelos “líderes” das facções marxistas, como o homossexualismo e as drogas.

 

No primeiro número, embora não se assuma explicitamente como anarquista, O Inimigo do Rei faz a proposta para a criação de uma Federação Livre de Estudantes, que deveria garantir a autogestão das lutas do movimento estudantil. Imediatamente a notícia de que surgira um jornal falando de federalismo, autogestão e antiautoritarismo, atiçou a curiosidade e a esperança dos grupos libertários e anarquistas espalhados pelo Brasil, o que deu início à aproximação entre eles.

 

Nas edições seguintes, O Inimigo do Rei foi consolidando o seu caráter antiautoritário e definindo o seu posicionamento libertário e anarquista. Temas ligados à realidade brasileira da época eram colocados lado a lado com outros tradicionalmente abordados pelo movimento anarquista, como o socialismo libertário versus socialismo autoritário. Porém, o que identificava O Inimigo do Rei como único, com propostas e apresentação de temas distintos daqueles tratados nos demais periódicos da chamada imprensa alternativa, na sua maioria marxistas de todos os matizes, era sua abordagem irônica, sarcástica e irreverente, mas, ao mesmo tempo, profunda, contundente e radical. Em pleno período ditatorial militar denunciava não só essa, mas, todas as formas de ditadura, incluindo aquelas preconizadas pelos grupos marxistas que lutavam contra a ditadura militar. Além disso, tratava abertamente de temas presentes na realidade do dia-a-dia do brasileiro: racismo, minorias, homossexualismo e drogas, de uma maneira natural, alegre e irônica, e que eram evitados, ignorados, em alguns casos proibidos, pelas demais forças da esquerda.

 

Outra grande característica do O Inimigo do Rei, que o tornava distinto das demais publicações, era a vivência prática da teoria que divulgava e professava. A distinção entre o intelectual e o trabalhador, entre o jornalista e o vendedor e divulgador do jornal, desapareceu. Quem escrevia, necessariamente, tinha que vender o jornal. Embora existisse um grupo editor, ele era responsável apenas pela organização e impressão de cada edição, não interferindo na seleção das matérias publicadas. Nos primeiros números o grupo da Bahia assumiu essa função, porém, nos demais, até por uma questão de custos, cada edição era responsabilidade de um dos grupos que faziam e mantinham O Inimigo.

Essa situação rendeu mais duas grandes lições, comprovando as convicções dos grupos responsáveis pelo O Inimigo: a viabilidade da autogestão e a não dependência dos especialistas, senhores do saber. Em relação à primeira, o jornal era mantido, financeiramente, pela venda dos seus exemplares pelos grupos que participavam da sua elaboração, com as  decisões sendo tomadas por esses mesmos grupos. Toda e qualquer alteração envolvia a todos, o que implicava em assumir responsabilidades e respeitar acordos. Com relação ao segundo caso, ocorreu um processo permanente de descoberta e aprendizagem. Nas primeiras edições o jornal dependia do conhecimento de alguns militantes jornalistas, que ficavam responsáveis pela parte técnica. Com o passar do tempo, outros militantes que nunca tinham participado da construção de um jornal, não tinham a menor ideia do que era copydesk, fotolito, lauda, tornaram-se verdadeiros jornalistas, e viriam a utilizar essa experiência em ações futuras.

 

O final da década de 70 e durante a década de 80 foram anos de grandes agitações sindicais e estudantis no Brasil. As forças políticas e sociais se reorganizavam e atuavam na realidade brasileira. Entre os anarquistas não era diferente e O Inimigo do Rei era um dos canais de manifestação das suas propostas, talvez aquele com maior alcance. Suas páginas foram abertas para manifestações de várias correntes, entre elas o anarco-sindicalismo com matérias sobre as ações dos grupos que lutavam pela reconstrução da COB (Confederação Operária Brasileira), organização criada no início do século XX pelos trabalhadores brasileiros, e que teve forte influência na luta social daquela época. Grupos comunistaslibertários e anarco-individualistas também participavam efetivamente do jornal, possibilitando a convivência de um largo espectro de correntes de ideias libertárias e anarquistas.

 

Mesmo havendo discordâncias e debates, por vezes bastante acirrados, sobre como atuar na realidade brasileira daquele momento, O Inimigo do Rei representou, na prática, a síntese e a expressão das ideias anarquistas e libertárias dos grupos e indivíduos que o apoiavam. Embora não tenha ocorrido um debate formal, organizado especificamente sobre o tema, esses grupos e indivíduos compreendiam sua importância para o movimento anarquista, e lutavam pela sua preservação. Conservavam sua independência e autonomia, atuando de acordo com suas convicções e levando em conta a realidade de cada local, mas, construindo e contribuindo para o estabelecimento de relações harmoniosas entre os grupos, conciliando suas diversas visões e distintos interesses.

 

O exemplo frutificou e sensibilizou outros grupos espalhados pelo Brasil. Após os primeiros números, onde participaram os grupos de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, a rede do Inimigo contou com a participação de grupos de Florianópolis, Brasília, Curitiba, Goiânia, Belém, João Pessoa, cobrindo as cinco regiões geográficas do País.

 

Como já foi dito, o Inimigo resistiu e existiu até 1988, totalizando 22 edições em 11 anos. Podem ser apontadas várias causas para o encerramento de suas atividades, porém, nunca houve grande interesse em analisá-las em profundidade por parte dos seus colaboradores. Aparentemente, “morreu de morte natural”, cumprindo com sua missão durante certo tempo, servindo ao propósito dos grupos que atuaram em uma determinada realidade. De concreto, é possível registrar que alguns elementos da realidade mudaram, assim como os grupos e indivíduos que davam vida ao Inimigo. Os interesses dos grupos e indivíduos, antigos e novos, mudam em razão da realidade em que vivem. Procuram meios alternativos que, no seu entender, podem responder mais adequadamente aos desafios da luta social e da sua organização.

 

Seja como for, O Inimigo do Rei foi um marco no movimento anarquista brasileiro, e

continua sendo fonte de inspiração para aqueles que sonham, lutam e dizem:

 

S I M

AUTOGESTÃO GENERALIZADA

LIBERDADE SEXUAL

PLURALISMO SINDICAL

DIREITOS DAS MINORIAS

GREVE GERAL EXPROPRIADORA

COLETIVISMO AGRÁRIO

DESOBEDIÊNCIA CIVIL

SORVETE DE MANGABA

FEDERALISMO

AÇÃO DIRETA

ANTIMILITARISMO

DIREITO DE NÃO VOTAR

 

* este texto é um extrato daquele publicado em GERMINAL - Revista de Estudios Libertários, nº 10, julio/dezembro 2012, Madri, Espanha. 

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